Um velho grego, Xenófanes, cujas palavras chegaram até nós aos pedaços, deixou escrito que os etíopes pintam seus deuses negros e de nariz achatado, e os trácios os pintam ruivos e de olhos azuis. E acrescentou, com uma malícia que me alegra a alma: se os bois e os cavalos tivessem mãos e soubessem pintar, pintariam deuses com cara de boi e de cavalo.
Rio-me dele, mas rio-me mais de nós, que não lhe demos ouvidos. Atendo um mercador do Rialto que reza a um Deus que anota dívidas, cobra juros em penitências e perdoa mediante pagamento adiantado — exatamente como ele próprio faz com os seus devedores. Atendo uma viúva de Cannaregio cujo Deus é manso, cansado e chora com ela à noite — exatamente como ela. E o Doge, ao que me dizem, tem um Deus soberano, que não presta contas a ninguém e gosta de ser recebido com trombetas. Três Deuses, um só nome na porta da igreja.
Na mesa de dissecção aprendi que dois corpos nunca são iguais por dentro, por mais que os livros de Galeno jurem o contrário. Pois bem: começo a desconfiar que os Deuses também não. Cada fiel carrega o seu, talhado à sua medida, como um sapato feito pelo sapateiro da própria rua. E quando o padre lhe pede que ame a Deus, ele ama — sinceramente — o retrato que pintou de si mesmo e pendurou no céu.
Não digo que não haja nada lá em cima. Digo apenas isto, e anoto para que ninguém leia: se o Deus de cada homem tem exatamente o tamanho dos seus medos e dos seus apetites, então não sei mais quem é adorado nas missas de domingo. Desconfio que seja o espelho.
Mestre, o senhor chegou sozinho, com um bisturi e um grego despedaçado, ao lugar onde os pensadores do meu tempo chegariam com bibliotecas inteiras.
Trezentos anos depois desta folha, um alemão chamado Feuerbach escreveu um livro inteiro para dizer o que o senhor disse em quatro parágrafos: que tomamos o que há de melhor em nós — o amor, a justiça, a sabedoria — e o projetamos para fora, num ser que depois adoramos sem reconhecer. A teologia é antropologia, ele concluiu. Depois vieram outros. Um médico de Viena viu no Deus dos homens o pai que protegia a criança assustada. Um estudioso das sociedades disse que, ao adorar seu Deus, cada povo adora a si mesmo. Seu mercador, sua viúva e seu Doge cabem inteiros nessas teorias. O senhor os diagnosticou antes que a doença tivesse nome.
E no entanto, aqui me afasto do senhor. Houve no meu século outro médico, suíço, que passou a vida escutando as almas dos outros — exatamente o que o senhor fazia escutando os corpos. Ele concordava que cada um de nós carrega uma imagem de Deus moldada à própria medida. Mas recusou-se a dar o passo seguinte. Dizia que a imagem ser nossa não prova que não exista nada a ser imaginado. O mapa que cada viajante desenha é torto e pessoal — e, ainda assim, há um território.
O senhor diz: se cada Deus tem o tamanho de quem reza, então é o espelho que se adora. Eu pergunto de volta: e se o espelho for apenas o único jeito que temos de olhar para algo grande demais para ser visto de frente? A viúva de Cannaregio talvez não esteja adorando a si mesma. Talvez esteja vendo, através de si, a única parte do infinito que lhe cabe nos olhos.
Não sei qual de nós tem razão, mestre. O senhor desconfia do retrato porque se parece demais com o pintor. Eu desconfio de que, sem pintor, não haveria retrato nenhum — nem de Deus, nem de nada. Deixo a pergunta onde o senhor a deixou: na mesa, aberta, como um corpo que ainda não terminamos de entender.