Foglietto VI #Deus de cada um

Do Deus que se Parece com Quem Reza

Um velho grego, Xenófanes, cujas palavras chegaram até nós aos pedaços, deixou escrito que os etíopes pintam seus deuses negros e de nariz achatado, e os trácios os pintam ruivos e de olhos azuis. E acrescentou, com uma malícia que me alegra a alma: se os bois e os cavalos tivessem mãos e soubessem pintar, pintariam deuses com cara de boi e de cavalo.

Rio-me dele, mas rio-me mais de nós,...

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Foglietto V #estudo, Kierkegaard

Elogio de Abraão - Soren Kierkegaard

Kierkegaard, em Temor e Tremor, define Abraão, no seu discurso sobre fé:
(Foi) grande pela energia cuja força é fraqueza,
grande pelo saber cujo segredo é loucura,
pela esperança cuja forma é demência,
pelo amor que é ódio a si próprio.

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Foglietto IV #fé, crença e religião

Notas de um Herege Solitário

Na derradeira viagem que empreendi até Copenhague — longa travessia por mares frios e céus de chumbo — minha mente não repousou um só instante, antes se voltou, com obstinada melancolia, para certas conversações que tive com os homens do meu círculo em Veneza. Seus discursos sobre a fé, suas devoções eclesiásticas e o aparato todo de suas práticas pias foram-me remoendo o espírito durante dias...

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Foglietto III #Carrascos, heróis e moral

Dos Carrascos que a História Lava

Reparai numa coisa curiosa sobre a memória dos homens. O bravo que degola vinte inimigos numa manhã de batalha ganha uma estátua na praça; o veneno lento que o Conselho despeja sobre uma cidade inteira, cortando-lhe o grão até que morra de fome sem alarde, esse não ganha nome nem culpa, porque a fome não tem punho e ninguém retrata a fome a cavalo.

Vi doges serem chorados como pais da...

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Foglietto II #Mudar rumos

A Câmara e o Abismo

A câmara permanecia a mesma. Idêntica a todos os dias que a haviam precedido, como se o tempo, naquele recinto, houvesse feito pacto com a imobilidade. Tudo disposto com a severidade de quem teme a desordem como se teme a morte: algumas resmas de papel sobre a escrivaninha, cada folha repousando sobre a outra com a exatidão de um argumento bem construído, e as pilhas — quatro no total —...

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Foglietto I #alma

Do Corpo e do Silêncio

Abri o peito daquele homem jovem sob a luz pálida de Pádua. Busquei com a ponta de ferro da faca, entre o coração e os pulmões, o sopro ou a centelha que os padres chamam de alma. Não encontrei senão sangue denso, carne fria que já fedia e o silêncio absoluto da matéria que se desfaz.

A vida foge como o calor da água fervida deixada ao relento. Se a alma existe, ela não habita as cavidades...

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